Por Vera Caser

 

Desde o início desta grave e longa crise que se abateu sobre o Brasil, passei a receber muitos pedidos de ajuda de pessoas em busca de emprego, o que me causa um enorme sentimento de angústia. Sim, porque essa perspectiva do modelo de vínculo entre empregados e patrões não tem como se sustentar mais por aqui a longo prazo, e a expectativa de retorno para quem saiu do mercado se afasta de maneira exponencial com o passar do tempo.

 

É para esse caminho que aponta a pesquisa que o IBGE divulgou na segunda quinzena de maio último, segundo a qual falta trabalho no País para 27,7 milhões de pessoas – o número mais elevado desde 2012. Dito de outra forma, esse dado revela que a taxa de subutilização de mão de obra bateu recorde no primeiro trimestre deste ano, chegando a 24,7% da população. Estão incluídos nessas condições os desempregados, aqueles que gostariam de trabalhar e os que desistiram de tentar uma colocação.

 

A dificuldade de acesso ao emprego formal, aliada ao sonho de ter o próprio negócio, empurra milhões de brasileiros e de brasileiras de diversas faixas etárias para o empreendedorismo. Segundo a pesquisa Global Entrepreneurship Monitor (GEM), realizada pelo Instituto Brasileiro da Qualidade e Produtividade (IBQ), com apoio do Sebrae, em diversos países, no ano passado, cerca de 50 milhões de brasileiros na faixa etária de 18 a 64 anos empreenderam ou realizaram atividades voltadas para a criação de um negócio em um futuro próximo.

 

A taxa de empreendedorismo em 2017, de acordo com o estudo, foi de 36,4%, muito próxima à de outros países abrangidos pelo trabalho. Os dados mostram ainda que não houve variação significativa em relação a 2016.

 

Alguns aspectos dessa pesquisa chamam atenção, quando se avalia as pessoas que abrem um novo negócio. O primeiro, em relação à faixa etária. As mais ativas são jovens de 25 a 34 anos. Na outra ponta, está o grupo que menos empreende, situado na faixa de 55 a 64 anos. Muitos desses profissionais são aposentados e precisam complementar a renda da família.

 

Nesse ponto, os dados brasileiros não se diferenciam muito dos apurados em outros países. Entretanto, quando a questão se volta para o gênero, o Brasil se distingue de outros países pelo fato de as mulheres responderem pela mesma taxa de empreendedorismo alcançada pelos homens.

 

Mas não se animem: isso vale apenas para a abertura das empresas e para os primeiros três anos de funcionamento delas. Passada a fase inicial, o sexo masculino predomina em todos os locais analisados. Muitas mulheres desistem, em grande parte pela dificuldade de conciliar as atividades inerentes aos negócios com a rotina doméstica.

 

O desenvolvimento de programas de educação empreendedora específicos para o público feminino poderia contribuir para que as mulheres se mantivessem no comando de suas empresas. Ao mesmo tempo, é fundamental a realização de campanhas de conscientização dos companheiros dessas profissionais para que eles participem e ajudem a mudar a realidade atual, em que a jornada de trabalho feminina de afazeres domésticos é de 21 horas semanais, enquanto os homens dedicam 10 horas a essas atividades.

 

A necessidade de capacitação se estende aos demais públicos, em especial ao grupo com idade mais avançada. Minha mente sempre se volta para a possibilidade do empreendedorismo quando alguém me procura para pedir ajuda com o objetivo de conseguir emprego. Mas esse passo exige esforço, qualificação, persistência e um certo talento. É preciso fazer uma reprogramação mental e comportamental para começar e, principalmente, para seguir.

 

Vera Caser é consultora na área de comunicação empresarial