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Artigo – Glória e vergonha: territórios limítrofes

Leia o artigo que nossa diretora, Vera Caser, publicou no jornal A Tribuna, no qual ela faz uma reflexão sobre o risco que correm profissionais que sucumbem ao fascínio do poder e do dinheiro

Minha mãe, uma pessoa modesta com origem no interior do Espírito Santo, tinha por hábito citar ditados populares. Para cada situação ela guardava um na ponta da língua. Os provérbios que ouvi durante toda a minha vida fazem parte, hoje, do meu cotidiano. Muitas vezes, sem me dar conta, acabo repetindo o gesto da minha mãe – mesmo que apenas em pensamento.

Foi o que aconteceu recentemente, ao ler o livro “Entre a glória e a vergonha”, o último escrito pelo consultor de crises Mario Rosa. Não conseguia tirar da cabeça um dos ditos mais recitados por ela: “Diga-me com quem andas e te direi quem és”.

Pai Rosa, como o jornalista se autodenomina no livro, trabalhou para pessoas envolvidas nos principais escândalos políticos e corporativos ocorridos na história recente do País. As operações Lava Jato e Castelo de Areia, a venda da Ambev para a Interbrew, a disputa do grupo Casino com o Pão de Açúcar e a CPI da CBF/Nike são alguns dos casos em que Rosa atuou, remunerado a peso de ouro.

E a quem ele serviu? Ricardo Teixeira (CBF), Léo Pinheiro (OAS), Carlos Pires Oliveira Dias (Camargo Correa) e Carlos Jereissati (Iguatemi) integravam a insólita carteira corporativa. Mario Rosa trabalhou ainda para Renan Calheiros, José Dirceu, Antônio Carlos Magalhães, o marqueteiro Duda Mendonça e o banqueiro Daniel Dantas, entre tantas outras personagens polêmicas. Ah, orientou também o ex-médico Roger Abdelmassih, aquele senhor condenado a 181 anos por estupro de 37 pacientes.

Depois de 20 anos de glória, Rosa teve de gerenciar a própria crise. E os resultados não foram os mais gloriosos. Em 2015, foi alvo da Operação Acrônimo, que investigou o esquema de corrupção envolvendo o ex-ministro e governador de Minas, Fernando Pimentel (PT) e que foi concluída em outubro de 2017 com o indiciamento de oito pessoas, entre as quais ele próprio.

Assim como fez com diversos clientes do consultor de crises, a Polícia Federal bateu na sua porta com mandados de busca e apreensão. Além de sentir na pele o sofrimento que outrora tentara aliviar, ele causou dor ainda maior a quem o contratara, pois várias empresas foram devassadas depois do seu envolvimento em um escândalo de grau máximo.

E assim se encerra a carreira de um homem brilhante, vencedor de vários prêmios de jornalismo ao longo de uma trajetória construída na revista Veja, no Jornal do Brasil e na TV Globo, e autor de diversos livros que deram grande contribuição a muitas pessoas que atuam com assessoria de imprensa e gerenciamento de crises – eu entre elas. Muitos leram “A Síndrome de Aquiles”, “A Era do Escândalo” e “A Reputação na Velocidade do Pensamento”.

Que ironia do destino! Quem não se lembra da lenda grega segundo a qual Aquiles foi banhado pela mãe, a deusa Tétis, nas águas do rio Estige, ao nascer, para se tornar indestrutível? O calcanhar, local onde ela segurou o bebê, não foi molhado, e se tornou o seu ponto fraco. Foi ali que a flecha o atingiu durante a Guerra de Tróia.

Não nos cabe julgar ninguém, pois há instâncias adequadas para esta finalidade. Todos conhecemos a dificuldade de resistir à tentação do poder, da fama e do dinheiro. Mas é preciso estabelecer limites éticos que guiem nossas ações.

Como disse Mario Rosa, é tênue o limite entre a glória e a vergonha. Cabe a cada um avaliar esses territórios e decidir onde e como vai atuar.